O
MONÓLOGO INTERIOR DIRETO E INDIRETO
O
DISCURSO DIRETO E INOVAÇÕES
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Tipos
de Discursos
O termo discurso é usado em
teoria literária com o sentido de fala ou pensamento.
Assim, o discurso de um personagem é o seu ato de falar ou pensar.
Nas narrativas de ficção é o
recurso dramático por excelência. Portanto, seria inimaginável um
conto, uma novela, um romance sem ele. No teatro, o diálogo (termo
mais aplicável), assume papel tão relevante, que sem ele seria
praticamente impossível à encenação da maioria das peças
teatrais.
Do ponto de vista estrutural, o
discurso se classifica em:
1 - Discurso Direto;
Às
vezes, o narrador pode servir-se de uma fusão dos discursos direto e
indireto.
1 - O DISCURSO DIRETO
O Discurso será direto quando
temos, em um texto narrativo, a reprodução direta (literal)
da fala das personagens. Em outras palavras, o narrador não
nos diz o que a personagem falou; ele interrompe sua narrativa para
ceder a palavra à personagem para que ela mesma fale.
O discurso direto, geralmente, se
caracteriza com o narrador explicando quem vai falar (a frase termina
por dois pontos). Abre-se então um novo parágrafo para nele colocar
um travessão, seguido da fala da personagem:
João Romão parou à
entrada da oficina e gritou para um dos ferreiros:
— Ó Bruno! Não se
esqueça do varal da lanterna do portão! (O
Cortiço)
Observe,
no exemplo acima, que o narrador interrompe a narrativa para
introduzir (ceder), em novo parágrafo, as palavras (fala) do
personagem. Temos, então, um discurso ou diálogo direto.
Normalmente o narrador introduz a
fala das personagens por meio de verbos chamados dicendi,
de elocução
ou declarativos: dizer, afirmar,
responder, declarar, perguntar, indagar, questionar, interrogar,
seguido de dois-pontos:
Paulo, irritado
comentou:
— Agora é o carro que
não funciona.
Os verbos sentiendi:
gemer, suspirar, lamentar, queixar-se, que expressam estado
de espírito, reação psicológica, emoções, também podem
introduzir as falas das personagens:
O Aluno queixou-se:
— Só poderei sair do
meu quarto amanhã.
Os verbos dicendi
e sentiendi não só podem abrir
(preceder) o diálogo, como também encerrá-lo, ou
intercalar-se, e podem ser pontuados de acordo com a sua posição.
Veja:
O alfinete disse
à agulha:
— Faze como eu, que
não abro caminho para ninguém¹
(antes da fala
separa-se por dois pontos).
Faze como eu, que não
abro caminho para ninguém – (,) disse
o alfinete à agulha (depois da fala separa-se por travessão
ou vírgula).
Faze como eu - (,) disse
o alfinete à agulha (,) – que não abro caminho para ninguém (no
meio da fala separa-se por travessão ou vírgula)
Observação:
Não havendo diálogo, a reprodução
da fala da personagem pode ser feita por aspas, sem a necessidade do
travessão inicial. Como mostra os dois últimos exemplos acima. A
frase depois da fala e intercalada é iniciada por letra minúscula.
Os
verbos dicendi, sentiendi,
ou qualquer verbo que introduza ou apresente a fala da
personagem, o travessão, os dois-pontos e as aspas são as marcas do
discurso direto.
As Inovações
Alguns autores modernos aboliram
o emprego dos verbos dicendi (porque as falas são breves)
em favor de um ritmo mais veloz da narrativa:
O pai bateu-lhe
amistosamente no braço:
— Está bem, meu
filho. Vai.
Na busca de maior expressividade,
escritores modernos, como José Saramago, utilizam estruturas
inovadoras e criativas para reproduzir os diálogos da narrativa. Em
O Ano da Morte de Ricardo Reis, ele utiliza parágrafos de
aproximadamente uma página, com textos ininterruptos e diálogos
inseridos em meio à narração sem o recurso dos dois pontos, do
travessão ou das aspas:
[...] pela expressão da
cara não parece ser causado desgosto ter caído São Sebastian, Ela
diz, Desculpe, senhor doutor, não tenho podido vir [...]. Não
por isso, pensei que [...], Sentia-me cansada desta vida,
[...]
Semelhante processo é utilizado
pelo brasileiro Rubens Fonseca no conto A Matéria do Sonho.
As histórias em quadrinhos também empregam, em balões, o discurso
direto.
Para exemplificar a importância do
discurso direto, recorro ao conceito de Celso Cunha, em A Nova
Gramática do Português Contemporâneo:
“No
plano expressivo, a força da narração em discurso direto provém
essencialmente de sua capacidade de atualizar o episódio, fazendo
emergir da situação a personagem, tomando-a viva para o ouvinte, à
maneira de uma cena teatral, em que o narrador desempenha a mera
função de indicador das falas.”
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DO
DISCURSO DIRETO AO INDIRETO
E
VICE-VERSA
É
de vital importância para o ficcionista dominar estas duas
estruturas do diálogo e, mais ainda, conhecer as relações
existentes entre elas. Na transposição do estilo direto para o
indireto e vice-versa, realizamos alterações na estrutura do
período, das quais vamos destacar as mais importantes:
1.
O Foco Narrativo - O discurso direto apresenta, sempre, a fala da
personagem em primeira pessoa. No indireto usa-se a terceira
pessoa, em vez da primeira ou segunda:
— (eu)
Tenho
pressa —
disse o rapaz (discurso
direto).
O rapaz disse que (ele)
tinha
pressa (discurso
indireto).
Ela respondeu:
— (eu)
Comprei
um lindo vestido (discurso
direto).
Ela respondeu que (ela)
comprara um
lindo vestido (discurso
indireto).
2.
Os Tempos Verbais - Ao transformar o discurso direto em
indireto, você estará transcrevendo, no indireto, algo que
alguém já disse. Portanto, o tempo será sempre passado em relação
ao direto. Dessa forma, no indireto:
a) Verbo no pretérito imperfeito
em vez do indicativo:
— Não bebo
dessa água -
afirmou a menina. (direto:
presente do indicativo)
A menina afirmou quer não bebia
daquela água. (indireto:
pretérito imperfeito)
b) Verbo no futuro do pretérito,
em vez de futuro do presente:
— Farei o
possível - disse o moço. (direto:
futuro do presente)
O moço disse que faria
o possível. (indireto:
futuro do pretérito)
c) Verbo no futuro do pretérito,
em vez de futuro do presente:
Ele confessou:
— Irei
ao jogo. (direto:
futuro do presente)
Ele confessou que iria
ao jogo. (indireto: futuro
do pretérito)
d) Verbo no pretérito imperfeito
do subjuntivo, em vez do imperativo:
Aplaudam
– ordenou o diretor. (direto:
imperativo)
O diretor
ordenou que aplaudíssemos. (indireto:
pretérito
imperfeito do subjuntivo)
3.
Pronomes e Advérbios – Na fala das personagens do discurso
indireto, os pronomes pessoais de 1ª pessoa (eu, nós, me, mim,
comigo) e de 2ª pessoa (tu, vos, te, vos, convosco, você) devem ser
substituídos pelos pronomes de 3ª pessoa (ele, ela, lhe, o, a, se,
com ele, consigo):
Onde você
mora? Perguntou Aguinaldo. (direto)
Aguinaldo perguntou onde ele
morava. (indireto)
• Os pronomes demonstrativos
(tanto de 1ª quanto de 2ª, singular ou plural) este, esta, esse,
essa, isso, meu, minha, nosso, teu, tua, vosso, vossa devem, no
discurso indireto, serem substituídos por pronomes de 3ª: seu, sua,
aquele, aquela, aquilo:
— O que é isto?
Indagou o professor ao aluno. (direto)
O professor indagou ao aluno o que
era aquilo. (indireto)
4.
Expressões de Tempo e Lugar – As expressões de tempo e lugar
que indicarem proximidade (hoje, agora, aqui, cá) devem ser
substituídas, no discurso indireto, por aquelas que designam
distância: ontem, naquele instante, lá, ali.
— Venha cá,
minha filha — disse a mãe impaciente. (direto)
A
mãe, impaciente, pediu a sua filha que fosse até lá.
(indireto)
5.
No discurso indireto usamos a forma declarativa, em vez da
interrogativa ou imperativa do discurso direto:
Eu ordenei-lhe: Venha
imediatamente! (discurso
direto)
Eu ordenei-lhe que viesse
imediatamente. (discurso
indireto)
Indagou o cirurgião: Qual será a
verdadeira idade do doente? (direto)
Indagou o cirurgião qual seria a
verdadeira idade do doente. (indireto)
O
Monólogo Interior
•
O monólogo interior é uma técnica
literária que trata de reproduzir os mecanismos do pensamento no
texto. Caracteriza-se por transcorrer na mente da personagem, como se
o "eu" falasse a si próprio. Daí considerar-se o monólogo
interior, um diálogo que pode ocorrer com ela mesma; visto que
subentende a presença de um interlocutor, "o tu" (com quem
se fala), ou seja, "o outro". Já por aí se vê, portanto,
que teremos uma personagem desdobrada em duas entidades mentais: "o
eu e o tu", ou melhor, "o eu e o outro", que trocam
ideias ou impressões, confrontam-se, discutem e tentam se entender
como pessoas diferentes.
Como foi mesquinha a
minha conduta! Exclamou ela, eu que me orgulhava tanto do meu
discernimento, da minha habilidade! Eu que tantas vezes desdenhei a
generosa candura de minha irmã [...]. Como é humilhante esta
descoberta! Mas como é justa esta humilhação! [...]. Mas a
vaidade, não o amor, foi a minha loucura! [...]. Até este momento
eu não conhecia a minha própria natureza. (Orgulho e
Preconceito. Jane Austen.)
•
Podemos observar, neste fragmento
de Orgulho e
Preconceito, que
a personagem exprime o seu pensamento mais íntimo. Defronta-se com
suas próprias falhas, admite que errou e que merece a humilhação
pela qual está passando. Falando com a "outra" que existe
dentro dela, assume não ter conhecido sua própria natureza e
fragilidades, caracterizando assim, o monólogo interior.
•
Nesse tipo de discurso, o escritor
expressa em seus escritos (por meio da personagem), sentimentos e
pensamentos reprimidos, ocultos, que não consegue expressar com
palavras; fantasias que nunca puderam ser transformadas em ações e
desejos que nunca puderam ser realizados. Isso permitiu aos
escritores, durante o modernismo, explorar os tumultuados mundos que
constituíam o interior de si mesmos.
•
De dois modos pode apresentar-se o
monólogo interior:
a) Diretamente,
isto é, sem a intervenção do escritor, ou de qualquer marca
manifestando a sua intervenção, como introduções ou intercalações
do tipo: pensava ele, dizia-se etc.; e mesmo as aspas.
De maneira que a personagem expõe o conteúdo subterrâneo de sua
mente, tendo o presente (do pensamento) como tempo dominante, numa
espécie de confidência (direta) ao leitor, sem barreiras de
qualquer ordem e sem obediência à normalidade gramatical.
As últimas quarenta e cinco
páginas do Ulisses, de James Joyce, têm sido consideradas o
exemplo mais acabado e perfeito do monólogo interior direto;
principalmente, na citada fala de Molly Bloom, que atinge o auge por
ter sido suprimida toda a pontuação, e se desenrolar sem quaisquer
interrupções até ao final do romance. A pontuação marcaria uma
interrupção – uma respiração - logo, seria ainda uma
intervenção do autor.
Em Perto do Coração Selvagem,
de Clarice Lispector, encontram-se dois monólogos interiores diretos
(emprego da primeira pessoa, ausência de um interlocutor e a não
interferência do escritor) entre as páginas 58 e 63 e 175-179. Do
primeiro destaco um trecho:
A
cama desaparece aos poucos, as paredes do aposento se afastam, tombam
vencidas. E eu estou no mundo solta e fina como uma corça na
planície. Levanto-me suave como um sopro, ergo minha cabeça de
mundo, do tempo, de Deus. Mergulho e depois emerjo, como de nuvens,
das terras ainda não possíveis, ah ainda não possíveis. Daquelas
que eu ainda não soube imaginar, mas que brotarão. Ando, deslizo,
continuo, continuo... Sempre sem parar, distraindo minha sede cansada
de pousar num fim [...] — Estou me enganando preciso voltar. Não
sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas ainda existe a
terra...
b) Indiretamente, isto é,
com a intervenção patente do ficcionista na transcrição do fluxo
mental da personagem, que comenta, discute e explica (em 3ª pessoa),
como se este detivesse o privilégio de sondar-lhe e captar-lhe o
mundo psíquico sem deformá-lo, pelo menos aparentemente. Tudo se
passa como se a personagem não conseguisse exprimir sua tumultuada
psique. Forma-se então, no monólogo interior indireto, o triângulo
escritor/protagonista/leitor, ao passo que no direto o primeiro
desaparece completamente. Porém as características do monólogo
interior indireto tornam-no mais fácil a transcrição do fluxo
mental da personagem e, por isso mesmo, é usado mais frequentemente
pelos ficcionistas. Em Mrs. Dalloway, Virginia Woolf utiliza o
monólogo interior indireto com muitos de seus personagens. Aliás,
todos os seus romances contêm excelentes exemplos de monólogo
interior indireto; às vezes mesclado com outro discurso, às vezes
isolado. Em Perto do Coração Selvagem também encontramos exemplos
de monólogo interior indireto:
"De manhã. Onde
estivera alguma vez, em que terra estranha e milagrosa já pousara
para agora sentir-lhe o perfume? Folhas secas sobre a terra úmida. O
coração apertou-se-lhe devagar, abriu-se, ela não respirou um
momento esperando... Era de manhã, sabia que era de manhã...
recuando como pela mão frágil de uma criança, ouviu abafado como
em sonho, galinhas arranhando a terra. Uma terra quente, seca... o
relógio batendo tin-dlen... tin-dlen... o sol chovendo em pequenas
rosas amarelas e vermelhas sobre as casas. Deus, o que era aquilo
senão ela mesma? Mas quando? Não, sempre..."
Percebe-se, no fragmento, o emprego
da terceira pessoa (O
coração apertou-se-lhe devagar, abriu-se, ela não respirou um
momento esperando...)
denunciando a nítida presença da autora. A protagonista parece se
despersonalizar-se e referir-se a si própria como uma estranha, e a
romancista acompanha-lhe os movimentos. Percebe-se também que a
interferência é apenas periférica, ficam intocados os impulsos
desconexos que habitam a psique da personagem.
O
SOLILÓQUIO
Vocábulo de origem latina
"Soliloquiu(m)", cujo significado é: [loqui] = falar,
[solus] = sozinho. Na literatura esse termo foi cunhado por Santo
Agostinho no seu "Líber Soliloquium".
Pode ocorrer tanto no teatro como
no romance. O solilóquio presume que a personagem, sozinha em face
do auditório e do leitor como se estivesse inteiramente
desacompanhada de qualquer outra, articule seus pensamentos em alto e
bom som.
O solilóquio consiste na
oralização do que se passa na consciência do protagonista. Aí
está a diferença do monólogo interior. Neste a oralização se
passa no subconsciente do protagonista, de modo que suas emoções e
ideias são estruturadas de forma ilógica e incoerente. Já o
solilóquio, por se passar no consciente da personagem, suas ideias e
emoções são estruturadas de maneira coerente e lógica, ainda, que
partindo de um pensamento psicológico e não racional. Considera-se
inexistente, no solilóquio, a intervenção do escritor; a
personagem se comunica diretamente com o leitor. Daí ser empregado
nas circunstâncias em que o escritor deseje que a personagem
expresse com meios próprios o que lhe vai à consciência.
O solilóquio é feito sempre na
primeira pessoa e dirige-se ao leitor como se a personagem dialogasse
com um interlocutor calado, com uma diferença: no solilóquio é
possível dizer tudo o que se passa pela mente, enquanto o diálogo
não permite, visto ser uma relação.
Nos
séculos XVI e XVII foi usado regularmente, como se observa, por
exemplo, na obra de Shakespeare, "Hamlet", que apresenta o
conhecido solilóquio “To be or not to be”, ou de Gil Vicente,
cuja Farsa de Inês Pereira (representação de 1523) começa com um
solilóquio da heroína, do qual destaco as primeiras linhas:
Ó
Jesus! Que enfadamento,
e
que raiva, e que tormento,
que
cegueira, e que canseira!
Eu
hei de buscar maneira
d’algum
outro aviamento
Mais
uma vez recorro a Clarice Lispector, em o Coração Selvagem,
para exemplificar, com este trecho, o solilóquio:
“Eu
estava sentada na catedral, numa espera distraída e vaga. Respirava
opressa o perfume roxo e frio das imagens. E, subitamente, antes que
pudesse compreender o que se passava, como um cataclismo, o órgão
invisível desabrochou em sons cheios, trêmulos e puros. Sem
melodia, quase sem música, quase apenas vibração. As paredes
compridas e altas abóbadas da igreja, recebiam as notas e
devolviam-nas sonoras, nuas e intensas. Elas transpassavam-me,
entrecruzavam-se dentro de mim, enchiam meus nervos de
estremecimentos, meu cérebro de sons. Eu não pensava pensamentos,
porém música.”
Notou a confidência, numa
narrativa consistente, coerente, lógica, que a personagem faz a
você? O mesmo pode-se dizer da descrição. Pois é esta a
característica que diferencia o solilóquio do monólogo interior.
No teatro, sobretudo entre o século
XVI e meados do XIX, empregava-se um truque aparentado ao solilóquio:
o aparte. Consiste no recurso de a personagem manifestar os seus
pensamentos de tal forma que só se tornem audíveis a plateia e não
pelas demais figuras em cena, transformando, assim, a plateia em
verdadeiro confidente.
Materiais da autoria de Ricardo
Sergio,tirados do Recanto
das letras
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