terça-feira, 19 de abril de 2016

NOVAS TÉCNICAS NARRATIVAS

O MONÓLOGO INTERIOR DIRETO E INDIRETO
O DISCURSO DIRETO E INOVAÇÕES
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Tipos de Discursos

O termo discurso é usado em teoria literária com o sentido de fala ou pensamento. Assim, o discurso de um personagem é o seu ato de falar ou pensar.
Nas narrativas de ficção é o recurso dramático por excelência. Portanto, seria inimaginável um conto, uma novela, um romance sem ele. No teatro, o diálogo (termo mais aplicável), assume papel tão relevante, que sem ele seria praticamente impossível à encenação da maioria das peças teatrais.
Do ponto de vista estrutural, o discurso se classifica em:
1 - Discurso Direto;
2 - Discurso Indireto;  (clique no link)
3 - Discurso Indireto livre;  (clique no link)
4 - Monólogo interior;  (clique no link)
5 - Solilóquio.  (clique no link)
Às vezes, o narrador pode servir-se de uma fusão dos discursos direto e indireto.
1 - O DISCURSO DIRETO
O Discurso será direto quando temos, em um texto narrativo, a reprodução direta (literal) da fala das personagens. Em outras palavras, o narrador não nos diz o que a personagem falou; ele interrompe sua narrativa para ceder a palavra à personagem para que ela mesma fale.
O discurso direto, geralmente, se caracteriza com o narrador explicando quem vai falar (a frase termina por dois pontos). Abre-se então um novo parágrafo para nele colocar um travessão, seguido da fala da personagem:
João Romão parou à entrada da oficina e gritou para um dos ferreiros:
Ó Bruno! Não se esqueça do varal da lanterna do portão! (O Cortiço)
Observe, no exemplo acima, que o narrador interrompe a narrativa para introduzir (ceder), em novo parágrafo, as palavras (fala) do personagem. Temos, então, um discurso ou diálogo direto.
Normalmente o narrador introduz a fala das personagens por meio de verbos chamados dicendi, de elocução ou declarativos: dizer, afirmar, responder, declarar, perguntar, indagar, questionar, interrogar, seguido de dois-pontos:
Paulo, irritado comentou:
Agora é o carro que não funciona.
Os verbos sentiendi: gemer, suspirar, lamentar, queixar-se, que expressam estado de espírito, reação psicológica, emoções, também podem introduzir as falas das personagens:
O Aluno queixou-se:
Só poderei sair do meu quarto amanhã.
Os verbos dicendi e sentiendi não só podem abrir (preceder) o diálogo, como também encerrá-lo, ou intercalar-se, e podem ser pontuados de acordo com a sua posição. Veja:
O alfinete disse à agulha:
Faze como eu, que não abro caminho para ninguém¹ (antes da fala separa-se por dois pontos).
Faze como eu, que não abro caminho para ninguém – (,) disse o alfinete à agulha (depois da fala separa-se por travessão ou vírgula).
Faze como eu - (,) disse o alfinete à agulha (,) – que não abro caminho para ninguém (no meio da fala separa-se por travessão ou vírgula)
Observação: Não havendo diálogo, a reprodução da fala da personagem pode ser feita por aspas, sem a necessidade do travessão inicial. Como mostra os dois últimos exemplos acima. A frase depois da fala e intercalada é iniciada por letra minúscula.
Os verbos dicendi, sentiendi, ou qualquer verbo que introduza ou apresente a fala da personagem, o travessão, os dois-pontos e as aspas são as marcas do discurso direto.
As Inovações
Alguns autores modernos aboliram o emprego dos verbos dicendi (porque as falas são breves) em favor de um ritmo mais veloz da narrativa:
O pai bateu-lhe amistosamente no braço:
Está bem, meu filho. Vai.
Na busca de maior expressividade, escritores modernos, como José Saramago, utilizam estruturas inovadoras e criativas para reproduzir os diálogos da narrativa. Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, ele utiliza parágrafos de aproximadamente uma página, com textos ininterruptos e diálogos inseridos em meio à narração sem o recurso dos dois pontos, do travessão ou das aspas:
[...] pela expressão da cara não parece ser causado desgosto ter caído São Sebastian, Ela diz, Desculpe, senhor doutor, não tenho podido vir [...]. Não por isso, pensei que [...], Sentia-me cansada desta vida, [...]
Semelhante processo é utilizado pelo brasileiro Rubens Fonseca no conto A Matéria do Sonho. As histórias em quadrinhos também empregam, em balões, o discurso direto.
Para exemplificar a importância do discurso direto, recorro ao conceito de Celso Cunha, em A Nova Gramática do Português Contemporâneo:
No plano expressivo, a força da narração em discurso direto provém essencialmente de sua capacidade de atualizar o episódio, fazendo emergir da situação a personagem, tomando-a viva para o ouvinte, à maneira de uma cena teatral, em que o narrador desempenha a mera função de indicador das falas.”
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DO DISCURSO DIRETO AO INDIRETO
E VICE-VERSA

É de vital importância para o ficcionista dominar estas duas estruturas do diálogo e, mais ainda, conhecer as relações existentes entre elas. Na transposição do estilo direto para o indireto e vice-versa, realizamos alterações na estrutura do período, das quais vamos destacar as mais importantes:
1. O Foco Narrativo - O discurso direto apresenta, sempre, a fala da personagem em primeira pessoa. No indireto usa-se a terceira pessoa, em vez da primeira ou segunda:
(eu) Tenho pressa — disse o rapaz (discurso direto).
O rapaz disse que (ele) tinha pressa (discurso indireto).
Ela respondeu:
(eu) Comprei um lindo vestido (discurso direto).
Ela respondeu que (ela) comprara um lindo vestido (discurso indireto).
2. Os Tempos Verbais - Ao transformar o discurso direto em indireto, você estará transcrevendo, no indireto, algo que alguém já disse. Portanto, o tempo será sempre passado em relação ao direto. Dessa forma, no indireto:
a) Verbo no pretérito imperfeito em vez do indicativo:
Não bebo dessa água - afirmou a menina. (direto: presente do indicativo)
A menina afirmou quer não bebia daquela água. (indireto: pretérito imperfeito)
b) Verbo no futuro do pretérito, em vez de futuro do presente:
Farei o possível - disse o moço. (direto: futuro do presente)
O moço disse que faria o possível. (indireto: futuro do pretérito)
c) Verbo no futuro do pretérito, em vez de futuro do presente:
Ele confessou:
Irei ao jogo. (direto: futuro do presente)
Ele confessou que iria ao jogo. (indireto: futuro do pretérito)
d) Verbo no pretérito imperfeito do subjuntivo, em vez do imperativo:
Aplaudam – ordenou o diretor. (direto: imperativo)
O diretor ordenou que aplaudíssemos. (indireto: pretérito imperfeito do subjuntivo)
3. Pronomes e Advérbios – Na fala das personagens do discurso indireto, os pronomes pessoais de 1ª pessoa (eu, nós, me, mim, comigo) e de 2ª pessoa (tu, vos, te, vos, convosco, você) devem ser substituídos pelos pronomes de 3ª pessoa (ele, ela, lhe, o, a, se, com ele, consigo):
Onde você mora? Perguntou Aguinaldo. (direto)
Aguinaldo perguntou onde ele morava. (indireto)
Os pronomes demonstrativos (tanto de 1ª quanto de 2ª, singular ou plural) este, esta, esse, essa, isso, meu, minha, nosso, teu, tua, vosso, vossa devem, no discurso indireto, serem substituídos por pronomes de 3ª: seu, sua, aquele, aquela, aquilo:
O que é isto? Indagou o professor ao aluno. (direto)
O professor indagou ao aluno o que era aquilo. (indireto)
4. Expressões de Tempo e Lugar – As expressões de tempo e lugar que indicarem proximidade (hoje, agora, aqui, cá) devem ser substituídas, no discurso indireto, por aquelas que designam distância: ontem, naquele instante, lá, ali.
Venha , minha filha — disse a mãe impaciente. (direto)
A mãe, impaciente, pediu a sua filha que fosse até . (indireto)
5. No discurso indireto usamos a forma declarativa, em vez da interrogativa ou imperativa do discurso direto:
Eu ordenei-lhe: Venha imediatamente! (discurso direto)
Eu ordenei-lhe que viesse imediatamente. (discurso indireto)
Indagou o cirurgião: Qual será a verdadeira idade do doente? (direto)
Indagou o cirurgião qual seria a verdadeira idade do doente. (indireto)



O Monólogo Interior
O monólogo interior é uma técnica literária que trata de reproduzir os mecanismos do pensamento no texto. Caracteriza-se por transcorrer na mente da personagem, como se o "eu" falasse a si próprio. Daí considerar-se o monólogo interior, um diálogo que pode ocorrer com ela mesma; visto que subentende a presença de um interlocutor, "o tu" (com quem se fala), ou seja, "o outro". Já por aí se vê, portanto, que teremos uma personagem desdobrada em duas entidades mentais: "o eu e o tu", ou melhor, "o eu e o outro", que trocam ideias ou impressões, confrontam-se, discutem e tentam se entender como pessoas diferentes.
Como foi mesquinha a minha conduta! Exclamou ela, eu que me orgulhava tanto do meu discernimento, da minha habilidade! Eu que tantas vezes desdenhei a generosa candura de minha irmã [...]. Como é humilhante esta descoberta! Mas como é justa esta humilhação! [...]. Mas a vaidade, não o amor, foi a minha loucura! [...]. Até este momento eu não conhecia a minha própria natureza. (Orgulho e Preconceito. Jane Austen.)
Podemos observar, neste fragmento de Orgulho e Preconceito, que a personagem exprime o seu pensamento mais íntimo. Defronta-se com suas próprias falhas, admite que errou e que merece a humilhação pela qual está passando. Falando com a "outra" que existe dentro dela, assume não ter conhecido sua própria natureza e fragilidades, caracterizando assim, o monólogo interior.
Nesse tipo de discurso, o escritor expressa em seus escritos (por meio da personagem), sentimentos e pensamentos reprimidos, ocultos, que não consegue expressar com palavras; fantasias que nunca puderam ser transformadas em ações e desejos que nunca puderam ser realizados. Isso permitiu aos escritores, durante o modernismo, explorar os tumultuados mundos que constituíam o interior de si mesmos.
De dois modos pode apresentar-se o monólogo interior:
a) Diretamente, isto é, sem a intervenção do escritor, ou de qualquer marca manifestando a sua intervenção, como introduções ou intercalações do tipo: pensava ele, dizia-se etc.; e mesmo as aspas. De maneira que a personagem expõe o conteúdo subterrâneo de sua mente, tendo o presente (do pensamento) como tempo dominante, numa espécie de confidência (direta) ao leitor, sem barreiras de qualquer ordem e sem obediência à normalidade gramatical.
As últimas quarenta e cinco páginas do Ulisses, de James Joyce, têm sido consideradas o exemplo mais acabado e perfeito do monólogo interior direto; principalmente, na citada fala de Molly Bloom, que atinge o auge por ter sido suprimida toda a pontuação, e se desenrolar sem quaisquer interrupções até ao final do romance. A pontuação marcaria uma interrupção – uma respiração - logo, seria ainda uma intervenção do autor.
Em Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, encontram-se dois monólogos interiores diretos (emprego da primeira pessoa, ausência de um interlocutor e a não interferência do escritor) entre as páginas 58 e 63 e 175-179. Do primeiro destaco um trecho:
A cama desaparece aos poucos, as paredes do aposento se afastam, tombam vencidas. E eu estou no mundo solta e fina como uma corça na planície. Levanto-me suave como um sopro, ergo minha cabeça de mundo, do tempo, de Deus. Mergulho e depois emerjo, como de nuvens, das terras ainda não possíveis, ah ainda não possíveis. Daquelas que eu ainda não soube imaginar, mas que brotarão. Ando, deslizo, continuo, continuo... Sempre sem parar, distraindo minha sede cansada de pousar num fim [...] — Estou me enganando preciso voltar. Não sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas ainda existe a terra...
b) Indiretamente, isto é, com a intervenção patente do ficcionista na transcrição do fluxo mental da personagem, que comenta, discute e explica (em 3ª pessoa), como se este detivesse o privilégio de sondar-lhe e captar-lhe o mundo psíquico sem deformá-lo, pelo menos aparentemente. Tudo se passa como se a personagem não conseguisse exprimir sua tumultuada psique. Forma-se então, no monólogo interior indireto, o triângulo escritor/protagonista/leitor, ao passo que no direto o primeiro desaparece completamente. Porém as características do monólogo interior indireto tornam-no mais fácil a transcrição do fluxo mental da personagem e, por isso mesmo, é usado mais frequentemente pelos ficcionistas. Em Mrs. Dalloway, Virginia Woolf utiliza o monólogo interior indireto com muitos de seus personagens. Aliás, todos os seus romances contêm excelentes exemplos de monólogo interior indireto; às vezes mesclado com outro discurso, às vezes isolado. Em Perto do Coração Selvagem também encontramos exemplos de monólogo interior indireto:
"De manhã. Onde estivera alguma vez, em que terra estranha e milagrosa já pousara para agora sentir-lhe o perfume? Folhas secas sobre a terra úmida. O coração apertou-se-lhe devagar, abriu-se, ela não respirou um momento esperando... Era de manhã, sabia que era de manhã... recuando como pela mão frágil de uma criança, ouviu abafado como em sonho, galinhas arranhando a terra. Uma terra quente, seca... o relógio batendo tin-dlen... tin-dlen... o sol chovendo em pequenas rosas amarelas e vermelhas sobre as casas. Deus, o que era aquilo senão ela mesma? Mas quando? Não, sempre..."
Percebe-se, no fragmento, o emprego da terceira pessoa (O coração apertou-se-lhe devagar, abriu-se, ela não respirou um momento esperando...) denunciando a nítida presença da autora. A protagonista parece se despersonalizar-se e referir-se a si própria como uma estranha, e a romancista acompanha-lhe os movimentos. Percebe-se também que a interferência é apenas periférica, ficam intocados os impulsos desconexos que habitam a psique da personagem.
O SOLILÓQUIO


Vocábulo de origem latina "Soliloquiu(m)", cujo significado é: [loqui] = falar, [solus] = sozinho. Na literatura esse termo foi cunhado por Santo Agostinho no seu "Líber Soliloquium".
Pode ocorrer tanto no teatro como no romance. O solilóquio presume que a personagem, sozinha em face do auditório e do leitor como se estivesse inteiramente desacompanhada de qualquer outra, articule seus pensamentos em alto e bom som.
O solilóquio consiste na oralização do que se passa na consciência do protagonista. Aí está a diferença do monólogo interior. Neste a oralização se passa no subconsciente do protagonista, de modo que suas emoções e ideias são estruturadas de forma ilógica e incoerente. Já o solilóquio, por se passar no consciente da personagem, suas ideias e emoções são estruturadas de maneira coerente e lógica, ainda, que partindo de um pensamento psicológico e não racional. Considera-se inexistente, no solilóquio, a intervenção do escritor; a personagem se comunica diretamente com o leitor. Daí ser empregado nas circunstâncias em que o escritor deseje que a personagem expresse com meios próprios o que lhe vai à consciência.
O solilóquio é feito sempre na primeira pessoa e dirige-se ao leitor como se a personagem dialogasse com um interlocutor calado, com uma diferença: no solilóquio é possível dizer tudo o que se passa pela mente, enquanto o diálogo não permite, visto ser uma relação.
Nos séculos XVI e XVII foi usado regularmente, como se observa, por exemplo, na obra de Shakespeare, "Hamlet", que apresenta o conhecido solilóquio “To be or not to be”, ou de Gil Vicente, cuja Farsa de Inês Pereira (representação de 1523) começa com um solilóquio da heroína, do qual destaco as primeiras linhas:
Ó Jesus! Que enfadamento,
e que raiva, e que tormento,
que cegueira, e que canseira!
Eu hei de buscar maneira
d’algum outro aviamento
Mais uma vez recorro a Clarice Lispector, em o Coração Selvagem, para exemplificar, com este trecho, o solilóquio:
Eu estava sentada na catedral, numa espera distraída e vaga. Respirava opressa o perfume roxo e frio das imagens. E, subitamente, antes que pudesse compreender o que se passava, como um cataclismo, o órgão invisível desabrochou em sons cheios, trêmulos e puros. Sem melodia, quase sem música, quase apenas vibração. As paredes compridas e altas abóbadas da igreja, recebiam as notas e devolviam-nas sonoras, nuas e intensas. Elas transpassavam-me, entrecruzavam-se dentro de mim, enchiam meus nervos de estremecimentos, meu cérebro de sons. Eu não pensava pensamentos, porém música.”
Notou a confidência, numa narrativa consistente, coerente, lógica, que a personagem faz a você? O mesmo pode-se dizer da descrição. Pois é esta a característica que diferencia o solilóquio do monólogo interior.
No teatro, sobretudo entre o século XVI e meados do XIX, empregava-se um truque aparentado ao solilóquio: o aparte. Consiste no recurso de a personagem manifestar os seus pensamentos de tal forma que só se tornem audíveis a plateia e não pelas demais figuras em cena, transformando, assim, a plateia em verdadeiro confidente.
Materiais da autoria de Ricardo Sergio,tirados do Recanto das letras

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